O Misto de Arari: texto histórico e documental

Introdução

Este texto tem por objetivo registrar, sob perspectiva histórica e documental, a importância do Mixto como meio de transporte coletivo e de cargas no município de Arari-MA e região, especialmente entre as décadas de 1960 e 1970. O relato baseia-se em memórias pessoais do autor, complementadas por informações contextuais que ajudam a compreender o cotidiano, a infraestrutura e a dinâmica social da época.

Misto: caminhão e área de passageiros, versão cabine cortada. Foto e texto do arquivo de Romulo Soares, titular do Instituto Histórico e Geográfico de Arari e da Academia Vitoriense

O Mixto: definição e características

O Mixto, grafado com X, conforme uso popular da época, era um veículo adaptado a partir de caminhões, transformados para atender simultaneamente ao transporte de passageiros e cargas. Havia duas configurações principais: uma com a boleia original (cabine do motorista) e outra com a boleia parcialmente cortada, ampliando o espaço destinado aos passageiros. Essas adaptações faziam do Mixto um transporte híbrido, geralmente dividido entre cabine de passageiros e carroceria. Sobre a cabine dos passageiros era instalada uma estrutura de madeira ou ferro, utilizada como bagageiro.

Nota explicativa 1 – Bagagens:

Nas décadas de 1960 e 1970, o uso de malas modernas era raro no interior do Maranhão. Eram comuns maletas de madeira, sacos de pano e redes, que precisavam ser acomodados externamente, justificando a presença do bagageiro superior.

A capacidade do Mixto variava conforme o número de cabines ou compartimentos, comportando, em média, cinco a seis passageiros por cabine.

Misto: caminhão e área de passageiros, versão cabine inteira. Foto: acervo de Romulo Soares

Função social e itinerário

O Mixto desempenhava papel essencial na integração regional, realizando diariamente a linha Arari–São Luís e São Luís–Arari, atendendo não apenas aos ararienses, mas também aos moradores de Vitória do Mearim, localidades vizinhas e intermediárias ao longo do itinerário.

A saída ocorria, em geral, às cinco horas da manhã, com chegada à capital por volta do meio-dia ou início da tarde, entre doze e treze horas.

Nota explicativa 2 – Duração da viagem:
O tempo prolongado de deslocamento estava diretamente relacionado às condições precárias das estradas, que não permitiam velocidade constante nem tráfego regular.

Nota explicativa 3 – Roteiro:

A rota de Arari a Miranda, passava pelos seguintes povoados da época: Igarapé do Arari, Olaria, Centro Velho, Bamburral, Mata, Gancho, Marajá, Cajazinho, Brito, Cipó e Centrinho – Miranda.

De Miranda a Ponte da Estiva: Dois Irmãos, Pindoval, Oásis, Colombo, Entroncamento, São Francisco, Cariongo, São João, Santa Rita, Bacabeira, Periz de Baixo, Periz de Cima, Campo de Periz – Estiva.

As estradas e as “rodagens”

As estradas, chamadas popularmente de rodagens, eram em sua maioria revestidas de piçarra, apresentando buracos, ondulações e trechos alagadiços. O percurso entre Arari e Miranda era conhecido como estrada carroçal, funcionando razoavelmente apenas no período de estiagem.

Durante o inverno, tornava-se quase intrafegável, com frequentes atoleiros e interrupções causadas pelas chuvas intensas.

Nota explicativa 4 – Estrada carroçal:

O termo designava vias rudimentares, abertas para circulação de carros de boi e veículos pesados, sem pavimentação adequada.

Posteriormente, o Governo do Estado do Maranhão, atendendo solicitação do então deputado estadual Dr. Milton Ericeira, construiu a estrada de piçarra MA-15, hoje, BR 222, melhorando significativamente o tráfego na região.

A agência do Mixto

As passagens para o Mixto eram adquiridas em um local conhecido como Agência. Inicialmente, esta funcionou na residência do senhor Tutu Batalha, situada onde hoje se encontra a casa do senhor Ariovaldo Fernandes.

Entre os agentes responsáveis pelo atendimento ao público, destacaram-se Nuzaniro Silva (Nuza), Tutu Batalha e Zé da Agência, como era popularmente conhecido. Posteriormente, a agência foi transferida para a Rua Zuleide Bogéa, na residência que atualmente pertence ao pesquisador, historiador e escritor João Francisco Batalha.

Em São Luis, funcionou na área do Mercado Central em frente ao SIOGE, no inicio da rua de Santana, na rua Herculano Parga em frente á Pensão do Sr. Melquiades, e, de lá para o antigo Terminal Rodoviário da Alemanha.

Nota explicativa 5 – Agências:

Antes da existência de terminais rodoviários, era comum que agências funcionassem em residências particulares ou pequenos comércios locais

Motorista s (chofer) e ajudantes do Mixto

Os motoristas, então chamados de chofer, eram figuras bastante conhecidas da população. Entre eles, destacou-se Henrique filho de Guálter e Nogueira, um dos profissionais mais reconhecidos e que por mais tempo atuou nessa função, tornando-se amigo dos ararienses.

Seus ajudantes mais lembrados foram José Raimundo Fernandes (Mancha) e Eliosmar, (já falecidos), trabalhadores que participavam ativamente das viagens e da manutenção do transporte.

Nota explicativa 5 – Ajudantes:

Os ajudantes auxiliavam no embarque e desembarque de passageiros, acomodação de cargas, pequenos reparos mecânicos e apoio geral durante as longas viagens.

Considerações finais

O Mixto representou, por anos, um elo fundamental entre o interior maranhense e a capital do estado. Mais do que um simples meio de transporte, foi instrumento de mobilidade social, acesso à educação, comércio e serviços essenciais.

Este registro não pretende esgotar o tema. Trata-se de uma contribuição memorialística e documental, baseada em vivências pessoais, que se soma a outras narrativas igualmente importantes para a preservação da história de Arari e de sua gente.

SOARES, Romulo. O misto de Arari: texto histórico e documental. Portal Arari: Assuntos Ararienses, 2026. Disponível em: <www.arari.org.br>. Acesso em: 00/00/0000. [copie, cole em seu texto e adicione a data atual]

Autor

  • Romulo de Jesus Soares é professor e membro fundador do Grêmio Arariense dos Estudantes e do Instituto Histórico e Geográfico de Arari (IHGA). Página do autor: arari.org.br/romulosoares E-mail: romulosoares@arari.org.br

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